
A que ponto chegou a política em Pernambuco?
Na (27), a governadora Raquel Lyra publicou em suas redes sociais um vídeo de 2022 em que João Campos envia uma mensagem parabenizando Amisadai Andrade da Silva pelo nascimento de sua filha. O registro foi utilizado pela governadora para questionar a relação entre os dois.
Como imprensa, nosso papel é mostrar o que foi publicado e registrar os fatos. Mas também é preciso mostrar o contexto completo.
Amisadai não é uma pessoa que apareceu agora no cenário público. Ele ocupava um cargo em comissão de Superintendente de Operações da Arena de Pernambuco, vinculado à Secretaria de Turismo e Lazer. Foi nomeado para a função em maio de 2025 e acabou exonerado pelo Governo do Estado nesta semana, após ser citado na reportagem da Record sobre a suposta estrutura de ataques políticos nas redes sociais.
E há outro detalhe que também precisa ser colocado no contexto: durante parte desse período, a Arena de Pernambuco era comandada por Michele Collins, que assumiu a direção-presidente do equipamento em março de 2025 e deixou o cargo em abril de 2026 para disputar uma vaga de deputada federal.
Isso significa que Amisadai ocupava um cargo de confiança na Arena durante a gestão de Michele Collins.
Mas existe ainda outro ponto.
João Campos não foi o único político a aparecer em vídeos publicados por Amisadai. Também existem registros de Mendonça Filho e Michele Collins enviando mensagens de felicitações à família de Amisadai.
E aqui está a minha reflexão:
Se o vídeo de João Campos é apresentado como elemento para levantar questionamentos sobre sua relação com Amisadai, por que os outros registros também não são apresentados ao público dentro do mesmo contexto?
Isso não significa afirmar que os vídeos de Mendonça Filho ou Michele Collins comprovem qualquer envolvimento com as acusações que estão sendo investigadas. Da mesma forma, um vídeo de João Campos parabenizando alguém, isoladamente, não comprova participação em qualquer esquema.
O que precisamos é de contexto.
E o contexto inclui tudo: o vídeo de João, os vídeos de outros políticos, o cargo que Amisadai ocupava no Governo de Pernambuco, o período em que Michele Collins comandou a Arena e, principalmente, as acusações que estão sendo apuradas.
Não se trata de defender João Campos, Raquel Lyra, Mendonça Filho ou Michele Collins.
Trata-se de defender o jornalismo.
A imprensa precisa mostrar os fatos sem escolher apenas aquilo que favorece uma determinada narrativa. Cabe ao leitor conhecer os diferentes elementos e tirar suas próprias conclusões.
Se a regra é mostrar, que se mostre tudo.
Se a regra é investigar, que se investigue tudo.
Se a regra é informar, que se informe com contexto.
A disputa eleitoral pode ser dura. Acusações precisam ser apuradas e eventuais responsabilidades devem ser comprovadas.
Mas não podemos transformar um vídeo de felicitação em prova automática de envolvimento político — seja de João Campos, de Mendonça Filho, de Michele Collins ou de qualquer outra pessoa.
O Diário do Pajeú publica o vídeo divulgado pela governadora, mas também apresenta os demais elementos porque entendemos que a população merece conhecer a história inteira, e não apenas o trecho escolhido por um dos lados.